

Herança de sangue
21 de junho de 2019, auditório do Departamento de Artes e Música da UFPR.
Duração: aproximadamente 15 minutos.
Elementos: livro de artista e colar com pingente da estrela de Davi
A ação consistia em rasgar as páginas do livro de artista e dispô-las em círculo ao redor, montando uma cronologia com as imagens.
A ação Herança de sangue, foi a primeira performance que realizei para a disciplina de projeto avançado em performance e tinha como ideia conceitual reunir diversas imagens que contassem, em sequência, a trajetória de minha família no período do holocausto e, consequentemente, a fuga de seu país de origem. Não era um tema novo para mim, uma vez que concomitante à formulação da proposta da performance, eu realizava um estudo de ilustração dentro do mesmo tema, o que pode ter sido prejudicial à ação em si, já que posteriormente percebi muitas influências desse mundo ilustrativo, as quais citarei no decorrer do capítulo.
A priori, haveriam revistas e livros antigos que abordassem o nazismo e o período entre guerras, que o antecedeu, dos quais seriam recortados parágrafos, frases e imagens, mas me surgiu a questão de como criar um silêncio e, de alguma forma, fazer dele um silêncio ruidoso. Assim, estabeleci quais seriam as imagens a serem incorporadas ao trabalho, coladas nas folhas de um livro alemão antigo, que seriam arrancadas abruptamente provocando sons de ruptura – afinal, a ruptura talvez possa ser considerada o conceito da ação; não só a ruptura entre a página e o livro, entre as fibras do papel, mas a ruptura entre a paz e o medo, entre a vida que se conhecia e o novo.
Em uma análise posterior junto à turma, percebi que o primeiro problema da ação, o qual desencadeou todos os outros, foi tê-la baseado nessas fotografias, o que fez dela muito ilustrativa e até didática, como disse um dos colegas. Em relação a isto, a entrevista de Boris Groys para Luiza Proença, Sinais fortes/ sinais fracos, me pareceu crucial para entender o que deu errado nesta ação e me serviu como conceito norteador não só para as próximas performances, mas para minha produção pessoal como um todo. Enquanto pesquisador, Groys assume os sinais fracos enquanto “universais, transtemporais, democráticos e transhistóricos”, os sinais fortes, por outro lado, são “ideológicos, temporais, históricos e utópicos”. A relação que vejo entre esses conceitos e a ação é que esta estava completamente ligada a um ponto de vista muito pessoal e cuja ideologia era, também, muito marcada, fechando –e sufocando- o trabalho dentro dele mesmo.
A ação aconteceu no auditório, onde são ministradas as aulas do projeto avançado, abri espaço entre as cadeiras do fundo e pedi para que os colegas se sentassem em roda no chão, era um dia frio, o que intensificou a ideia de desconforto que eu queria provocar. Me sentei ao meio, com roupas e sapatos pretos e o livro fechado a minha frente. A performance se iniciou quando coloquei um colar com o pingente de estrela de Davi, abri o livro e comecei a arrancar suas páginas com força, as deixando ao meu redor e criando, assim, um círculo de papel dentro da roda de pessoas o que, ao meu ver, conferiu uma sensação de sufocamento, aperto. Ao término do livro, passei a sobrepor as imagens que arrancava, o que levou muitos colegas a me perguntarem se havia uma insinuação de que aquele ‘ciclo’ seria continuado, a minha intenção, porém, era de intensificar a sensação de sufoco. A última figura adicionada à roda foi uma fotografia de família idêntica à colada sobre a capa do livro, onde deixei meu colar posicionado, de forma não proposital, com seu centro sobre o rosto de minha bisavó, antes de concluir a ação.
A questão principal que a professora havia me lançado antes da realização da performance, era como fazê-la de forma que meu posicionamento fosse demarcado, uma vez que somente aquelas imagens não dariam conta de esclarecer uma crítica ou uma apologia ao nazismo e holocausto. O colar com pingente de estrela de Davi foi uma solução que encontrei e que acabou sendo um elemento importante visualmente devido ao contraste da prata sobre as roupas escuras.
Posterior à ação, minha análise sobre a mesma foi muito negativa, achei ruim a demarcação do início e do fim da ação, a disposição das imagens e não gostei que elas fossem tão ilustrativas e que mesmo assim houve comentários de que era uma história sobre famílias imigrantes no geral – depois, percebi que era isso. Era sobre famílias imigrantes mas era a minha, e vejo que deixar a ação tão pessoal não é interessante neste sentido – mas parecia muito complicado tornar universal uma coisa tão particular, assunto esse que tornei a conversar com a professora Luana, enquanto pensava em uma nova proposta.
Em um segundo momento, reconheci a importância dessa performance e de seus erros, e se fosse repensá-la a faria de uma forma muito mais enxuta. Manteria a organização circular, mas, talvez, me sentaria entre as pessoas, com as mesmas roupas pretas e o colar de estrela de Davi, a observar este centro vazio enquanto toca em um volume altíssimo – ou então muito baixo, de modo que teríamos de nos esforçar para ouví-la - uma reprodução sonora de gritos.
Por fim, a ação foi bem próxima do que idealizei, o que não é necessariamente bom ou ruim, mas um aprendizado. Enquanto primeira performance, esta apresentava elementos e figurações demais, que acabaram se sobressaindo e o ato em si se tornou um elemento secundário. As imagens formavam uma narrativa que não se faz essencial na arte de ação e a minha participação enquanto realizadora acabou sendo, de certa forma, acessória. Percebi, depois, que como a professora mesma comentou, o que acabei fazendo foi uma contação de história silenciosa. Por outro lado, acho importante ter iniciado minha experiência com a arte de ação com herança de sangue, pois percebo aqui elementos que se perpetraram em minha poética, como o silêncio, as roupas escuras (não no sentido de serem neutras, mas no sentido de remeter um breu ou ausência –não só de luz), o livro e as palavras, como o símbolo mais recorrente em minhas ações.
A ação recebeu críticas muito construtivas dos observadores e da professora, as quais acatei e tentei levar para as demais performances.



