


Pasárgada
04 de outubro de 2019, sala de estudos do Departamento de Artes e Música da UFPR.
Duração: aproximadamente 30 minutos.
Elementos: mesa comprida de madeira e poltrona marrom, vela, nanquim, bico de pena, cera, papéis e envelope de carta, lata de marmita antiga, chave medieval enferrujada, selos húngaros 1960-70 e um ingresso para passeio de balão 1969.
A ação consistia em retirar todos os objetos da lata, abrir e ler uma das cartas e escrever outra em resposta, lacrá-la e guardá-la dentro da lata junto com as outras coisas.
A ideia para esta ação surgiu porque a palavra ‘Pasárgada’ estava em minha cabeça há quase um mês como uma constante, me remetendo ao poema de Manoel Bandeira, o qual não lia desde o colégio:
[...]
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
[...]
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei –
[...]
Vou-me embora pra Pasárgada
Pasárgada, cujo nome significa campo dos persas, foi uma cidade da Pérsia e a primeira grande capital na época de Ciro II. Hoje, patrimônio mundial da Unesco, possui a tumba de Ciro, o grande. Estudando sobre esse poema e também sobre a própria Pasárgada, tive uma leitura de que o autor não a entende somente enquanto cidade, mas um refúgio, é um poema de escape – há relatos de que Manoel Bandeira o escreveu em uma época em que estava muito doente e a palavra Pasárgada não saia de sua cabeça.
Em minha performance, queria manter a ideia de refúgio, de desejo de fuga, de saudosismo e até a idealização de um paraíso. Neste sentido, algumas questões surgiram, como performar a diferença entre o lugar em que estou e o lugar em que almejo estar? E como tratar Pasárgada tanto enquanto um paraíso como enquanto o lugar geográfico que é? Assim, elaborei três propostas para realizar a ação: na primeira, eu teria um molho de chaves, o qual seria desmanchado morosamente, e cada chave receberia uma etiqueta escrito ‘Pasárgada’ – neste caso, pode-se concluir que tenho acesso à Pasárgada, pois sou detentora de suas chaves. A segunda proposta teria como elementos cartões postais de Pasárgada, os quais seriam assinados por mim e endereçados a algum destinatário – aqui, poderíamos entender como alguém que 1) está no paraíso/pasárgada e manda lembranças aos conhecidos 2) acaba de voltar de viagem e trata de enviar seus postais, e nenhuma das alternativas me parecia satisfatória. A terceira proposta era enviar cartas endereçadas à Pasárgada – não estou lá, mas conheço alguém que esteja.
De certa forma, a terceira proposta foi desenvolvida e muitos elementos foram incorporados à ação – elementos estes agora não tão cotidianos (ao mundo contemporâneo) quanto os que apareciam na ação anterior -, como uma lata de marmita antiga, bico de pena e nanquim, um ingresso para uma viagem de balão de 1967, chave medieval, selos postais húngaros, cartas, um pires com vela branca, caixa de fósforos, uma colher para suporte, cera para derreter e um carimbo de postal, de modo que reunisse objetos que remetessem à escrita de cartas e que, ao mesmo tempo, compõem uma coleção de coisas do meu próprio paraíso.
A organização desta performance foi muito parecida à ação anterior, a mesa comprida foi utilizada novamente e os objetos ainda estavam localizados em sua extremidade esquerda. A ação teve início quando entrei na sala, após indicar aos observadores que o fizessem, sentei em uma poltrona bordô em frente à lata de marmita sobre a mesa, ao lado da qual deixei a chave medieval que havia levado dentro da manga de minha blusa. Abri a lata e tirei de dentro dela o bico de pena, o ingresso para viagem de balão, os selos postais e dois envelopes de cartas fechados. Abri um deles, endereçado à Annie, o li e logo tirei de dentro da mesma lata um envelope vazio e um papel em branco. Escrevi ali uma carta resposta, a lacrei com o selo de cera e colei o selo postal, devolvendo, depois disso, todos os objetos para dentro da lata. Saí da sala deixando aberta sobre a mesa a carta à Annie.
A ação se concretizou de maneira muito próxima ao que eu havia idealizado, e pequenos percalços como a dificuldade que tive na hora de acender o fósforo por causa de uma corrente de vento da janela –e o consequente, e involuntário, sorriso de vitória quando consegui-, foram lidos pela turma como ações que reforçaram uma ideia de fazer intimista, como a própria leitura e escrita de cartas incita. Por outro lado, apesar de ser minha intensão criar essa atmosfera intimista, talvez ela tenha se tornado muito intensa, uma vez que a maioria dos colegas relataram sentir certo desconforto por estar ali naquele momento introspectivo e, posteriormente, para ler a carta deixada sobre a mesa, como se eles fossem espectadores muito alheios àquela ação toda.
De modo geral, esta performance me agradou e se um dia eu a refizer, alterarei poucas coisas, como a duração – talvez esta ação fosse mais interessante se tivesse um caráter duracional, bem como a ação anterior e a próxima que comentarei -, escrevendo uma carta enorme ou diversas pequenas cartas, a disposição do público –que poderia circular ao redor da mesa, atrás de mim, apesar de nenhuma pessoa tê-lo feito – e, principalmente, essa esfera intimista, que deve ser repensada de modo a atender as exigências do próprio trabalho mas que ainda assim não isole o realizador do público.



