

Meios
30 de agosto de 2019, sala de pianos elétricos do Departamento de Artes e Música da UFPR.
Duração: aproximadamente 20 minutos.
Elementos: mesa comprida e cadeira de madeira, máquina de datilografia verde, pilha de papéis sulfite e dicionário antigo inglês-português/ português-inglês.
A ação consistia em escrever repetidas vezes a palavra "meios" até que a folha estivesse completamente preenchida.
A ação meios foi a que sucedeu herança de sangue. A performance, a princípio, não foi pensada a partir da própria ação, mas como uma maneira de falar sobre meu avô, que no mesmo mês fizera seis anos desde seu falecimento. A ideia inicial era realizar uma espécie de sepultamento póstumo, no qual eu acomodaria fotos, cartas e três rosas dentro de uma pequena caixa de madeira, que seria enterrada nos canteiros do estacionamento do campus. Ao discutir com a professora esta proposta, retomamos a questão já citada no capítulo anterior, da dificuldade de universalizar assuntos muito pessoais – como fazer com que uma foto de meu avô ativasse alguma lembrança ou sensação nos observadores, sem deixa-la significativa apenas para mim. Apesar de descartada, esta proposta foi fundamental para as próximas duas ações.
Pensando na universalidade e tentando fugir da ideologia, ambas citadas no capítulo anterior, concluí então que não teria necessidade de me apropriar da imagem de meu avô para falar desse luto – que não é mais aquele luto recente, que queima, mas um luto saudoso -, e passei a procurar palavras que pudessem estruturar essa ação e formas de executá-la de um modo mais subjetivo, tentando me distanciar do que foi minha primeira performance. Tentei resolver também os problemas que tive com a demarcação do início e do término da ação, entrando na sala e saindo dela depois – coisa que repeti na terceira, mas que começou a me incomodar e tentei fugir disso na quarta.
Os conceitos que me surgiram e os quais utilizei como alicerce foram herança – das coisas de meu avô que ficaram para mim -, modo de – no que se refere aos trejeitos-, lugares onde estive, estou e onde cresci – no sentido de lugares que me fizeram, me formaram enquanto pessoa. E, na procura de uma síntese, encontrei as palavras meio e meios, cujas definições, segundo o dicionário Michaelis, respectivamente:
Meio (mei-o): [i][...] adj 4. Que tem forma incompleta, inacabada ou acanhada. Sm 3. Momento equidistante do início e do fim; metade. 7. Possibilidade de realizar qualquer coisa; expediente, fórmula, maneira, método, modo. 8. Totalidade dos fatores externos suscetíveis de influir sobre a vida de qualquer ser vivo. 9. Condição ou circunstância que estabelece as características de um contexto social, familiar, profissional, econômico, geográfico etc. a que pertence a um indivíduo.
[i] Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=meio
Devido a gama de interpretações das palavras escolhidas, outros conceitos me surgiram conforme selecionava os elementos para a ação (uma máquina de escrever Olivetti verde oliva e um dicionário inglês-português e português-inglês antigo e amarelado) dentre eles: temporal, intervalo entre o começo e o fim – a vida, entre o nascimento e a morte; recursos; formas de execução/feitura – a máquina de escrever como um meio de escrever e o dicionário como um meio de conhecimento- e a parte de um todo.
Com o conceito previamente definido, comecei a pensar nos elementos auxiliares e disposição dos mesmos, o espaço, o contexto/ambientação a ser criado e o que fazer com esses materiais e essas palavras. Defini que a ação se daria pela repetição da escrita datilografada da palavra meios – e começo a perceber como a repetição quase que obsessiva está sempre presente em meus trabalhos em geral –, e me questiono se seria mais potente escrevê-la no centro da página e, assim, criar uma pilha de folhas escritas no meio ou repetir a palavra quantas vezes coubesse na página, até preenche-la por completo – alternativa esta que acabei escolhendo, dispondo a máquina de escrever entre uma pilha de folhas sulfite em branco e o dicionário aberto, criando certo equilíbrio visual.
Em uma análise posterior, considero este trabalho como o início de um pensamento acerca de materiais, objetos, do cotidiano, da apropriação e até um certo destaque desses objetos que nos passam desapercebidos usualmente. Esses materiais acabam sendo tão determinantes em minha pesquisa pessoal que muitas das ações serão pensadas a partir de um produto e as ligações deste com determinados conceitos. Sem dúvidas, isso se dá por influência dos trabalhos de Márcia X, artista brasileira que atuou principalmente nos anos 1990 e 2000 e cujos trabalhos, tanto em arte de ação quanto em outras linguagens, discutem a relação entre nós e os objetos cotidianos – para além, é claro, das discussões acerca do corpo da mulher cisgênero e os papéis que este corpo assume enquanto corpo social. Segundo a artista em texto[i], “Os trabalhos mais recentes parecem revelar as potencialidades transgressoras de elementos cotidianos”.
[i] Texto Márcia por Márcia, disponível no website da artista http://marciax.art.br/mxText.asp?sMenu=3&sText=16
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Em seguida, decidi criar um ambiente neutro de emoção, quase formal e deu certo, os pianos elétricos acabaram por fazer um contraste bonito, mas não roubavam a atenção do ambiente, e alguns colegas disseram ter lembrado de uma secretaria, tanto pelo som das teclas batendo quanto pela roupa que vesti. A ideia era mesmo remeter um trabalho, um ofício repetitivo, bem como uma funcionária que prepara um documento de separação de bens ou herança mas, em contrapartida, datilografei com os indicadores, evidenciando certa inexperiência.
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A ação, enfim, se iniciou quando entrei na sala de pianos elétricos, onde os colegas de turma já estavam sentados, caminhei até a ponta esquerda da mesa comprida e me sentei em frente à máquina de datilografia. Com o papel ajustado, comecei a datilografar o mais rápido que conseguia, variando o ritmo com que batia nas teclas e ajustando a velocidade conforme a linha chegava ao fim. A fita de tinta estava gasta e em algumas partes, a letra aparece no papel como uma leve marca d’água. Ao preencher toda a folha, o que levou cerca de 15 minutos, me levantei da cadeira e deixei a sala, pondo fim à ação e possibilitando que todos lessem o que havia sido escrito.
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Fazendo uma avaliação, penso que seria muito mais interessante e potente se esta fosse uma ação duracional e que, talvez, eu pudesse preencher várias folhas até acabar a pilha de papel em branco ou fazê-lo até que a tinta acabasse por completo.
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Meios, por fim, foi a ação que mais me agradou, tanto seu conceito quanto sua realização foram muito mais pensados que a anterior, remeteu nos colegas certa nostalgia e rendeu um comentário que me alegrou e fez repensar toda a ação posteriormente: o papel todo preenchido com meios era um papel todo preenchido com poesia, cada meios que escrevi tinha um significado diferente.



